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Concorrência concentrada: as histórias das ruas de Salvador que vendem produtos do mesmo segmento

Há mais de 30 anos, a rua do Saldanha, no bairro do Pelourinho, vem tornando-se mais conhecida em Salvador como a “rua dos eletrônicos”. Lá consertam-se TVs, DVDs e rádios, é possível encontrar peças e modelos raros de aparelhos de som e comprar as delicadas agulhas, o primeiro passo para desempoeirar vitrolas e discos. Nos dias derradeiros do sinal analógico de TV na capital baiana, e a mudança de vez para o digital, não havia espaço livre dentro das dezenas de lojas.

“Veio a cidade toda procurando os conversores, principalmente no dia 27 de setembro do ano passado. Foi uma loucura. Às vezes, pensamos que não, mas muita gente ainda assiste televisão todos os dias”, afirma o vendedor Edivaldo Cardoso.

A ruazinha, com entrada pelo Terreiro de Jesus e cujas interseções dão conta de um emaranhado de vielas e ladeiras, é caracterizada pela especialização comercial. Assim também é a rua do Salete, nos Barris, com a informática; a do Corpo Santo, no Comércio, e as numerosas lojas de artigos esportivos; e a do Paraíso ou “rua das festas”, na Mouraria.

Os comerciantes desses lugares preferem a concorrência direta (até de si) como vizinha, ao invés de arriscar a solidão atrás dos balcões e/ou bolsos vazios.

“A concentração nos ajuda bastante. Os clientes vão em várias lojas, pois sabem que vão encontrar o que querem aqui. Se fosse só a gente, teria bem menos movimento, a rua seria diferente”, diz Jusceli Santos, proprietária, ao lado do marido,  da Eletrônica Unisom há 23 anos,  na rua Guedes de Brito, transversal à Saldanha da Gama. Ela conta que a consolidação da “rua dos eletrônicos” ocorreu  no auge dos blocos com cordas e trios elétricos carnavalescos.

“Tinha muita demanda para o Carnaval entre os anos 1990 e início dos 2000. O pessoal dos trios elétricos comprava muito aqui. Mas agora importa de outros lugares. E a rua está ficando mais eclética, já tem também instrumentos musicais e informática. Hoje são as igrejas as nossas principais clientes, compram caixas, microfones”, relata Jusceli.

Vozes antigas da rua narram que a formação do conjunto de lojas de eletrônicos partiu de algumas iniciativas, entre elas a de um sujeito que se chamava Aniel Almeida, dono da famosa Betel. Para trabalhar com ele, o primo, Judison Lopes, saiu na década de 1960 de Santa Inês, município do interior da Bahia, e chegou a Salvador.

“Tinha 12 anos. Estudava de noite e trabalhava durante o dia. Comprava peças, pegava almoço. E fui aprendendo na prática, depois fiz curso”, conta Judison, atualmente proprietário da loja Mundo Eletrônico. Um nome apropriado para o local, cujo acervo tem relíquias como o rádio de válvula Philips e outro Abc A Voz de Ouro, além de vitrolas, aparelhos de som diversos e TVs. Dos produtos mais antigos aos novos, percorrem-se quase 100 anos.

O rapaz conta que já alugou, muitas vezes, equipamentos antigos para novelas, filmes e minisséries. “As  caixas de som que aparecem na abertura de Segundo Sol (novela da Rede Globo) são minhas”, diz, dentro do seu aquário de trabalho, onde faz montagens, consertos e troca de peças. Numa noite difícil de lembrar, viu a sua loja pegar fogo e perdeu todos os equipamentos, mas reconstruiu e acompanhou a ampliação do comércio.

“Isso aqui é um segmento, o que é bom para os clientes. Imagine você procurar algo numa loja, não achar e ter que atravessar a cidade para comprar em outro lugar?”, questiona Judison e, em seguida, argumenta que tal concentração é comum no ambiente urbano. “Cada capital tem as suas ruas segmentadas. Na área de eletrônicos, a rua Santa Ifigênia é um exemplo, em São Paulo”.

De residência ao comércio

Os mais velhos moradores da rua do Salete, localizada num ponto estratégico que liga a Piedade aos Barris, sequer imaginavam que aquela paragem, sempre pacata e residencial, se transformaria num cenário de intensa atividade comercial. De duas décadas para cá, os pendrives, HDs, computadores, notebooks e demais acessórios de informática são o centro das atenções. Pessoas dos quatro cantos da cidade sabem que ali acha-se de placa mãe e serviços de conserto de PC e notebook até mouse, caixinha de som e CPU.

O movimento não para ao longo do dia, assim como a música pop, em volume alto, que varia entre lançamentos americanos, brasileiros e coreanos. São mais de 30 estabelecimentos de informática, com diferentes proporções. Steven So, imigrante chinês que chegou ao Brasil há dez anos e dono de lojas na rua, acredita que uma das vantagens da ampla concorrência in loco é a diminuição do custo das mercadorias, tanto para os clientes, como para os empresários.

“Quanto mais produtos compramos juntos de um mesmo fornecedor, maior o desconto e menor o preço. E se você tem várias lojas, sempre entram clientes”, explica Steven, enquanto olha uma nova remessa  que acabou de chegar na Info Brasil, uma das suas empresas. Minutos depois, já está resolvendo outros assuntos na Smart Shop, a uns 20 metros de distância. Diz que o preço de um mesmo produto, entre uma loja e outra, pode variar. “Depende do retorno de cada”. É possível que duas lojas, do mesmo dono, tenham uma espécie de concorrência.

Para Antônio Amarante, coordenador das lojas Amarante, concorrência forte mesmo é a dos novos comerciantes informais  da avenida Sete que, somada à crise, contribuiu para uma diminuição de mais de 70% do lucro nos últimos anos. “A tendência dessa rua é, com o tempo, ficar mais diversificada”.

Entre as dezenas de casas de informática, outras lojinhas chamam  atenção: uma pequena gráfica, requisitada nesta época de eleição, pequenas lanchonetes e um sex shop. Num sobrado verde, o morador do bairro e comerciante Delson Silva administra a Pousada do Salete e uma loja de materiais de construção (tintas, ferragens, material elétrico) no térreo.

Embora resista a abrir uma casa  de informática, aos poucos foi inserindo acessórios. “Coloquei porque muita gente procura aqui, mas é pouquíssima coisa. O pessoal da informática vem aqui comprar e de vez em quando também vou lá. É uma ótima relação”, diz o antigo morador, que reconhece o crescimento do comércio, mas expressa saudade do tempo em que “colocava cadeiras na calçada para ver os bloquinhos de Carnaval e dormia de porta aberta”.

Esse vínculo com o Centro da cidade atravessa o cotidiano comercial das ruas. Para a urbanista Laila Bouças, a própria concentração de uma mesma atividade comercial na área está associada com a história e a cultura de Salvador e também a fatores de mobilidade (fluxos de transporte) e classe social.

“A rua do Saldanha fica no Centro Histórico, um dos lugares mais emblemáticos da cultura baiana, e a rua do Paraíso tem acesso facilitado para praticamente todas as regiões da cidade através da Estação da Lapa, da Barroquinha e da Carlos Gomes. E são locais do Centro em que, no imaginário coletivo, pode-se encontrar tudo  que se precisa”, diz Laila, ao comparar  os perfis das ruas do Saldanha e Paraíso aos da  avenida Mário Leal Ferreira (Paralela) e da  Alameda das  Espatódeas, no Caminho das Árvores.

“A Alameda das Espatódeas tem lojas de  decoração que atendem a um público de classe média/alta que pode residir em seu entorno. Já a Mário Leal Ferreira tem concentração de lojas do setor automobilístico, é uma via arterial, que conecta regiões diferentes e por onde passa um grande fluxo de veículos. Não poderia desenvolver um comércio segmentado que demandasse trajetos a pé”, argumenta.

Ordenação fundadora

No entendimento  do jornalista Luiz Eduardo Dorea, autor do  livro Histórias de Salvador nos Nomes das suas Ruas, a concentração de lojas especializadas numa rua é   costume antigo. Cita as ruas dos Algibebes (roupas de baixo padrão), dos Tanoeiros  (venda de tóneis), Calafates (barcos) e dos Ourives (de ouro).

Segundo ele, no tempo de  fundação da cidade,  esse fenômeno estava ligado tanto a uma religiosidade, como ao ordenamento medieval europeu.

“Eram corporações que tinham relações com   padroeiros, diferente dos sindicatos de hoje. Já ali existia   a  tendência dos comerciantes se reunirem a partir da sua atividade”, diz Luiz Eduardo, que, quando necessita de produtos de informática, vai à rua do Salete.

A possibilidade de resolver o que precisa caminhando é ressaltada por Laila como um atrativo desses espaços. Além disso, considera “uma experiência rica, dinâmica e singular”, para além do consumo. “A rua é o espaço público em sua essência.  É nesse lugar que se expressam as nossas diferenças e aquilo que nos é comum”, afirma, aludindo a um passeio na rua do Paraíso e as suas lojas de festa.

“Você pode tirar a manhã para passar por todas, pesquisar os menores preços e economizar. Pechincha, tem a possibilidade de encontrar o inusitado, reencontrar e conhecer pessoas, tomar  caldo de cana ou encontrar  algo que  sequer lembrava que precisava”.

A rua do Paraíso é uma das mais movimentadas. Como comenta uma jovem na lojinha Paraíso das Festas, “mesmo na crise, ninguém  deixa  de fazer festa nas datas especiais”. Moradores de cidades do interior pegam a estrada  para a capital baiana apenas para fazer compras de festa na ruazinha enladeirada. É o caso dos irmãos Alex e Luciana Bittencourt, que chegaram do município de  Pedrão com o objetivo  de  comprar  os adereços  para o aniversário de 90 anos da avó.

“Toda festa a gente vem aqui. Conseguimos pechinchar e, geralmente, nas menores lojas, encontramos os melhores preços. É como dizem: nos menores frascos, os melhores perfumes”, diz, bem humorada, Luciana.

Num passeio pela rua, percebe-se que, com o  avançar da tarde, as lojinhas vão ficando mais cheias, até atingir o auge do movimento  às 17h. “Quando o pessoal sai do trabalho, passa aqui”, fala a moradora   Marcia  Lourdes.

Antes das casas de festas, o lugar alternava bares e salões de beleza, até chegar o Bazar do Valter e a Le Biscuit (atualmente uma grande loja de departamento).

Filho do famoso Valter, pioneiro no comércio de artigos para festas, Alex Santos atualmente administra o negócio. Bom de papo, conta que no início era uma bomboniere e abastecia os baleiros da região, mas com a chegada da Le Biscuit, de Feira de Santana, um público novo passou a  frequentar, interessado numa variedade maior de produtos de armarinho e festas “numa época que supermercados só vendiam alimentos”. Foi aí que o Bazar se especializou, por volta de 2000.

“Com o tempo, o próprio pessoal do bairro também começou a abrir as suas lojas e foi uma concorrência amiga, boa para todo mundo. Especializou a rua como a rua das festas”, relata o empresário, que preza a agitada circulação de pessoas no local. “Se antes, na época dos bares, a movimentação  era  noturna, atualmente às 18h aqui fica parecendo um deserto”.

Como estratégia de atração de consumidores, quando as vendas estão baixas, pede para os funcionários trocarem a farda da loja  por roupa comum e passearem  dentro da loja. “Cliente vai onde tem gente, onde está ativo”, opina Alex.

No Comércio, a rua do Corpo Santo é especializada em artigos esportivos – chuteiras, padrões, camisas  de times  (réplicas  feitas no Ceará), pesos de ginástica, time de botão, entre muitos  outros. Enfim, um universo de esportes. Diferentemente da rua do Paraíso, já viveu tempos melhores, mas continua resistindo, sobretudo com vendas para escolas públicas  e “babas”  de bairro. Também oferece serviços incomuns atualmente, como o conserto de bolas.

Há 48 anos trabalhando em lojas  como vendedor, Artur Farias ocupa-se como médico das redondas; diz que é a sua  “aposentadoria”. Viu os diferentes contextos do comércio, dos momentos de  abundância aos mais difíceis, muitas lojas fechando e outras abrindo. Com essa experiência acumulada, sente segurança para dizer:  “A chegada dos shoppings, sim, mas  a concorrência alta na rua nunca foi problema”.Não mencionada autoria das fotos. Daniel Vieira, A Tarde


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