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Cão sem Pluma, espetáculo da Cia. Deborah Colker, chega a Salvador

Bailarinos cobertos de lama, com movimentos e passos que evocam os caranguejos, em meio a lama que cobre o solo. No palco, caixas que formam gaiolas humanas. No fundo, em telão, cenas impactantes que reforçam a construção do bicho homem. Trata-de de Cão sem Pluma, mais nova coreografia da prestigiada Cia de Dança Deborah Colker, que está em turnê pelo país. Inspirada no poema homônimo do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), o espetáculo será apresentado no Teatro Castro Alves neste sábado, 10, às 21 horas, e domingo, 11, às 18 horas.

Trata-se do primeiro espetáculo de temática explicitamente brasileira da Cia de Dança Deborah Colker, que foi criada em 1994 e traz no currículo, entre outros, os espetáculos Velox (1995), Rota (1997) Casa (1999), Nó (2005), Cruel (2008), Tatyana (2011) e Belle (2014). A trupe é patrocinada pela Petrobrás desde 995.

Publicado em 1950, o poema Cão sem Pluma acompanha o percurso do rio Capibaribe, que corta boa parte do estado de Pernambuco. As condições subumanas nas palafitas, a degradação da natureza, a pobreza da população ribeirinha, o descaso das elites, a vida dura no mangue e os efeitos da seca são enfocadas no poema que utiliza a metáfora do cão sem pluma para falar do homem despossuído de tudo, do homem caranguejo que se mistura com a lama como uma massa espessa ("Difícil é saber/ se aquele homem/ já não está/ mais aquém do homem”, diz em certo verso a obra cabralina) .

Mergulho

“Eu fui mergulhando profundamente nesta poética, neste rio que vem carregado de histórias e no seu entorno para construir um corpo, um repertório de movimentos a partir do vocabulário e imagens de João Cabral de Melo Neto', conta a coreógrafa Deborah Colker. A artista chamou para o processo criativo o cineasta pernambucano Cláudio Assis, diretor de longas-metragens como Amarelo Manga, Febre do Rato e Big Jato para a perspectiva audiovisual do espetáculo. Ela diz que foi a primeira vez que trabalha com cinema Como resultado, parte das imagens que foram registradas em novembro de 2016 quando a Cia víajou para o Recife (passou por seis cidades) seguindo todo percurso do rio, são mostradas na coreografia. No palco, 13 bailarinos.

E não só isso: para construir um bicho-homem, a artista não se baseou apenas em manifestações que são fortes em Pernambuco, como maracatu e coco. Também se valeu de samba, jongo, kuduro e outras danças populares. A jornada também foi documentada pelo fotógrafo Cafi, nascido em Pernambuco.

Deborah realça as participações de mais dois pernambucanos: Jorge Dü Peixe, da banda Nação Zumbi e um dos expoentes do movimento Mangue Beat, e Lirinha (ex-cantor do Cordel do Fogo Encantado, poeta e ator). A coreógrafa também contou com a participação do carioca Berna Ceppas, que acompanha Deborah desde o trabalho de estreia, Vulcão (1994).

Roteiro

Todo o espetáculo tem oito cenas emendadas com títulos criados durante os ensaio. Deborah entrega que o espetáculo abre com a imagem fílmica de uma criança, que representa o cão sem pluma, que viria de um lugar distante. Seguem as cenas propriamente ditas: Aluvião, Rio Ribeirinho, Caranguejão, Canavial, Rio Cão, Mangue, Garça e Cidade. Em Aluvião, os bailarinos clamam pela chuva (Quando da seca, seu leito é formado de areia, cascalho e lama/. Quando chega a chuva, o rio reconquista seu espaço./ Essa dança chama pela chuva), diz um dos trechos do poema.

No Rio Ribeirinho, de acordo com a coreógrafa, os corpos se “transformam” em água e trazem, entre outros, a figura do pescador, do plantador, do catador de caranguejo. Nas cenas do Caranguejão, todos os bailarinos se unem para formar a figura do caranguejo. Já na cena do Canavial são mostradas as danças do caboclinho, maracatu, coco ,samba de roda e cavalo marinho, entre outras ”, adianta Deborah. Em Rio Cão, a ideia é mostrar o alargamento do rio, mas também a maior resistência do homem, enquanto que na cena do Mangue são mostradas a atmosfera da região.

“A gente filmou com a maré baixa”, acrescenta Deborah, que informa que na cena da Garça, a ave simboliza a aristocracia que fecha os olhos aos problemas da população. Por último, na cena da Cidade, as caixas que formam as gaiolas se transforam em imagem belísima, que A TARDE prefere não adiantar para não estragar a surpresa do público.

Geografia da fome

Vale lembrar que o animal que vive no mangue está nas ideias do geógrafo Josué de Castro (1908-1973), autor de Geografia da fome e Homens e caranguejos, e do cantor e compositor Chico Science (1966-1997), principal nome do Mangue Beat, que mescla regional e universal.

Débora diz que o espetáculo foi feito todo na lama para trazer este lugar ao público. “Quero levar o público para o rio, para o mangue, para esta terra craquelada. A gente se comprometeu a contar esta história”, acrescenta Déborah, que recebeu em 2001 o Laurence Olivier Award na categoria Oustanding Achievement in Dance (realização mais notável em dança no mundo). Em 2009, ela criou um espetáculo para o Cirque de Soleil: Ovo e em 2016, foi a diretora de movimento da cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro.

Em Cão Sem Plumas, a cenografia e direção de arte são assinadas por Gringo Cardia e a iluminação é de Jorginho de Carvalho Já os figurinos são de Claudia Kopke. A direção executiva é de João Elias, fundador da companhia. Depois de Salvador, a Companhia seguirá em turnê pelo Nordeste, onde fará apresentações em Maceió, Recife, Natal, Sobral, Fortaleza, João Pessoa e Aracaju.

 


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