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Bisavó mostra que idade não é obstáculo para realizar grandes aventuras pelo mundo

Quando comecei a organizar jornadas fotográficas em 2009 não pensei que o número de viajantes do sexo feminino seria tão superior ao de viajantes masculinos. Mas até mesmo meus modestos números durante os últimos nove anos comprovam: as mulheres viajam bem mais do que os homens – quase três de cada quatro dos meus viajantes são do sexo feminino, uma média de 72%.

Sem cair em generalizações ou clichês, existe um grupo de mulheres maduras e com independência financeira que está muito interessada em conhecer novas fronteiras, entender outras culturas e passar por experiências que talvez não tenha tido oportunidade de viver antes. Enquanto isso, os homens parecem estar mais ocupados com suas realizações profissionais e, se não estiverem aposentados, possuem pouquíssimo tempo disponível (ou até mesmo vontade) para descobrir o mundo. Existem exceções, mas que tendem a confirmar a regra.

Com o aumento da expectativa de vida do brasileiro, os dois gêneros ganharam entre 10 a 15 anos sobre as gerações anteriores. Hoje, alguém de 60 anos com saúde comporta-se como os de 45 anos na época de nossos pais ou avós. E isso também é demostrado na pesquisa que realizei: 65% de meus viajantes – dois em cada três viajantes – possuem mais de 50 anos e estão dispostos a vencer os desafios de uma jornada a países exóticos, fora dos padrões de conforto. Cleo Franco, de 59 anos, idealizadora da agência Mulheres pelo Mundo especializada no público feminino, concorda. “Mais de60% de nossas clientes possuem mais de 50 anos.”

Um bom exemplo da energia que contamina esses idosos que se consideram jovens é a nissei Mitiko Magalhães. Com 74 anos de idade, ela já participou de sete jornadas com a Viajologia Expedições aos rincões mais apartados do planeta. Andou de camelo no deserto do Gobi na Mongólia, fez safáris fotográficos no sul da África e conheceu as mais remotas tribos da Etiópia. 

As extraordinárias viagens pelo mundo afora da nissei Mitiko Ueta de Magalhães

 Agora tenho mais um história de avó ou, no caso, de bisavó. No ano passado, Eva Reiter, uma alemã radicada em São Paulo há décadas e que já havia participado de uma das minhas oficinas de fotografia, manifestou interesse em participar da viagem a Madagascar realizada em outubro de 2017.

Um dos segredos de Eva Reiter: manter sempre o bom humor (Foto: © Haroldo Castro/Época)
Sabendo de sua idade avançada, marquei um encontro em sua casa para que eu pudesse avaliar, cara a cara, suas condições físicas. Com 84 anos de idade, ela mostrou estar em perfeita forma para percorrer trilhas nas florestas em busca de lêmures, caminhar pelos bosques secos de baobás ou entrar em uma canoa para passear no rio Manambolo.

O que mais me marcou durante nosso encontro não foi apenas sua agilidade, mas seu entusiasmo com a viagem. “Esta será minha primeira jornada à África, um continente que sempre quis conhecer. Quero aprender sobre a natureza e os povos que habitam a ilha de Madagascar”, afirmou Eva. “Para mim, viajar é viver o presente, encher minha mala com ideias novas e voar nos meus sonhos. A viagem evita as amarguras.”

Eva com o guia malgaxe Raymond Nirina mostrando uma jiboia. “Não tenho medo de cobras”, diz Eva (Foto: © Haroldo Castro/Época)
Naquele final de tarde paulistana, Eva Reiter foi mostrando as obras de arte que criou nas últimas duas décadas. A etapa como escultora durou alguns anos e deixou peças de bronze excepcionais. Uma delas, de cerca de 50 cm, feita em 2000, revela duas mãos fortes (as do bebê) rasgando e abrindo o ventre de uma mãe grávida para nascer. A escultura “Quero ver o mundo” ganhou um prêmio nos EUA. 
“Mas como as esculturas eram muito pesadas, troquei o bronze pelas telas, mais leves”, disse Eva. A partir de 2003, a artista, já com 70 anos, passou a criar pinturas abstratas, usando colagens subjetivas. “Agora estou buscando meu caminho na fotografia e, por isso, quero ir a Madagascar.”

Assim, alguns meses depois, cruzamos o sul do continente africanorumo a Madagascar. Chegamos à quarta maior ilha do mundo com uma equipe de idades bem díspares: enquanto a mais madura era uma artista de 84 anos de idade, a mais jovem tinha apenas 17.

Na visita a uma comunidade de pescadores, Eva bebe água de coco para se manter hidratada (Foto: © Haroldo Castro/Época)
Em busca das espécies nativas da fauna e da flora, o grupo de brasileiros percorreu várias trilhas por diferentes ecossistemas malgaxes. Logo notei que Eva estava sempre no início da fila indiana, ao lado do guia. E alguma vezes, até mesmo na frente dele. “Não gosto de ser um peso no grupo e atrasar o passo. Por isso, prefiro a dianteira”, disse Eva.

“O fato curioso é que ela sempre oferecia a mão para nos ajudar em alguma passagem mais difícil nas trilhas, quando o natural seria exatamente o oposto”, disse a viajante Luisa Teradaira, de Brasília. “Sua fragilidade era apenas aparente.”

Quando um lêmure-marrom pulou em seus ombros e começou a brincar com seus cabelos brancos, ela sorriu, sem ficar assustada em nenhum momento. “Foi exatamente por isso que quis conhecer Madagascar”, afirmou Eva.

Um lêmure-marrom nos ombros de Eva Reiter (Foto: © Haroldo Castro/Época)
Após um longo dia de caminhada, Eva não recusava o convite de tomar banho na piscina do hotel. Mas, para surpresa de todos, mais uma vez, ela não entrava devagarzinho, descendo uma escada, como pedem os avisos de segurança. Ela dava um mergulho de cabeça!Aos nossos olhares estupefatos, ela respondia que, quando jovem, era uma das melhores nadadoras da Romênia, seu país natal. Hoje, ela pratica ioga e hidroginástica quatro vezes por semana.

Um dos momentos mais emocionantes para Eva foi atravessar o labirinto de pedras do Parque Nacional Tsingy de Bemaraha.Formado por pináculos e agulhas de calcário, o Tsingy – palavra malgaxe que significa “local onde não se pode andar descalço” – é um dos pontos altos de nossa visita a Madagascar. “Tive de tomar muito cuidado com as pedras pontiagudas e a travessia foi muito intensa”, disse ela. “Mas adorei!”

Eva Reiter atravessa as formações rochosas do Tsingy de Bemaraha (Foto: © Haroldo Castro/Época)
Nada mais justo que descansar um pouco, mesmo se sentada em pedras pontiagudas (Foto: © Haroldo Castro/Época)
“Eva mostrou uma vitalidade impressionante durante toda a viagem. Fez-me lembrar uma frase de Douglas MacArthur, que diz que a idade de uma pessoa corresponde ao tamanho do seu desânimo. Nesse sentido, Eva foi pura animação e juventude”, afirmou a jornalista Marisa Castellani, companheira de viagem. 

Enquanto minha missão durante a viagem era mostrar o que mais procurávamos em Madagascar – lêmures, baobás e paisagens exuberantes – Eva, com seu olhar diferenciado de artista plástica, nos indicava formas abstratas ou um ângulo especial não enxergado por ninguém.

Eva possui uma visão mais abstrata da fotografia. Na imagem, as paredes de calcário formadas pela erosão do rio Manambolo (Foto: © Eva Reiter)
“Eva possui um olhar bem diferente do usual. Quando estávamos no vilarejo Vezo, fotografando as mulheres com máscaras faciais de pó de casca de árvore de tamarindo, ela estava ao lado fotografando uma carta de baralho no chão. Era um Rei de Espadas. Para Eva, a carta amassada e semi coberta de areia significava algo mais: que jogavam baralho na comunidade”, disse o carioca Antonio Schiaffarino, integrante do grupo.

Como as duas semanas em Madagascar passaram-se sem maiores percalços – apenas alguns arranhões durante as passagens estreitas entre as pedras do Tsingy – o último pôr do sol na capital Antananarivo foi reservado para um brinde a nossa paixão comum de viajar e ao sucesso de nossa aventura. “Minha cabeça não é de 84 anos, mas de 44. Eu nunca me entrego”, afirmou Eva.

Eva e companheiros de viagem fazem brinde para celebrar sucesso da jornada ao país dos lêmures e dos baobás (Foto: © Haroldo Castro/Época)


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