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A voz da periferia: Enderson criou seu próprio canal de comunicação

Enderson Araújo, 24 anos, nasceu e cresceu em Sussuarana, bairro periférico de Salvador. Em 2010 fundou o blog Mídia Periférica, que reúne textos, entrevistas e relatos sobre a periferia. Atualmente, é o integrante mais jovem do conselho curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Nasci em Sussuarana e, aos dois anos, mudei com minha família para Cajazeiras XI. Anos depois, meu pai foi embora e minha mãe passou a ocupar o lugar dos dois. Passamos dificuldades financeiras e contávamos apenas com ajuda da minha avó e tio maternos, que também não eram ricos. 

Costumo dizer que minha vida se divide em três luas. Minha primeira lua é a minguante, foi quando, aos seis anos, desmaiei na escola por não ter me alimentado antes de sair, simplesmente porque não tinha alimento em casa. Naquele dia eu entendi o que era estar na terra. Eu tinha que ajudar, de algum jeito. Minha mãe fazia bijuterias, então, passei a levar para vender na escola. Ela sugeria um preço, mas eu aumentava o valor para conseguir tirar o meu. 

Eu e minha irmã crescemos ouvindo mainha dizer que educação é prioridade, principalmente porque não tivemos pai e, caso ele voltasse algum dia, era uma questão de honra que percebesse o quanto tínhamos dado certo. 

Aos 14 anos, as coisas começaram a apertar novamente, e minha avó me trouxe de volta para Sussuarana. Seria uma boca a menos para minha mãe sustentar. Passei a trabalhar de manhã vendendo gás e, à noite, ia para a escola, o que se tornou uma rotina cansativa. No mesmo ano, fiz um curso profissionalizante, consegui um estágio de quatro horas como gari. Anos depois, voltei a estudar e, com um supletivo, concluí o ensino médio. 

Eu tinha 18 anos quando, andando pela comunidade, vi um fotógrafo fazendo registros. Era Eduardo Tavares, do programa Promovendo Direitos dos Jovens, realizado pelo Instituto Mídia Étnica (IME) e Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). O projeto estava em Sussuarana oferecendo oficinas voltadas para comunicação, empreendedorismo e outras áreas. Alguma coisa bateu em mim e, contrariando minha família, larguei o estágio remunerado, fui lá e me inscrevi. 

Acho que me destaquei porque sempre fui muito questionador. Na época, virei um rato de seminário e palestra. Tudo que tinha a ver com as oficinas eu fazia questão de ver e ouvir. A jornalista do projeto, Midiã Noelle, foi a primeira pessoa que me fez acreditar nessa veia de comunicador. 

Eu vivia questionando de que maneira eu poderia aplicar aquilo à minha vida, a resposta não chegava, mas de algum modo eu sabia que ainda usaria a comunicação como ferramenta de mobilização. 

Precisava de um trabalho de carteira assinada porque, apesar de ter aprendido muito no projeto, eu tinha que ganhar dinheiro. Recebi a ligação de uma loja de telefonia para uma entrevista. Estava feliz e seguro até que o cara perguntou meu endereço. Respondi. Ele disse que até tinha gostado do meu perfil, mas que eu morava em um lugar onde só tinha marginal e violência. Fiquei incrédulo e disse que para o povo da periferia falta escola, saúde e segurança, que antes de sermos violentos, somos violentados. Nos lugares mais pobres, a única coisa que chega do governo é o braço armado. 

Eu tinha tudo para chegar na comunidade procurando um traficante que me desse a oportunidade que o gerente da loja não me deu, mas voltei pensando em um jeito de desconstruir a ideia que as pessoas têm das periferias. Refleti sobre como a mídia mostra a gente, sempre com o estigma da violência e outras negatividades. 

Com a máquina fotográfica que ganhei no projeto, resolvi fazer fotos de vários pontos da comunidade e postar na internet. Queria que as pessoas soubessem que aqui a gente joga bola, as senhoras fazem tricô, os senhores jogam dominó e as crianças brincam na rua. 

Em julho de 2010, chamei alguns amigos, contei a ideia e fundamos o Mídia Periférica. A gente postava as fotos na internet e depois criamos programas interativos, como o Conversa de Quilombos, que entrevistava líderes negros, o I Love Periferia, em que os moradores das comunidades mandavam fotos de suas quebradas, e o Multicultural, que entrevistava artistas musicais. As postagens começaram a fazer sucesso em pouco tempo. Fui chamado por grandes jornais para dar entrevista e falar da importância de produzir informação da comunidade para a comunidade. 

Nos dois primeiros anos, eu alimentava o blog com a ajuda de amigos que me emprestavam seus computadores. Quando tinha dinheiro, deixava de pagar um sorvete para minha namorada para ir à lan house. Minha família não entendia e nem aceitava, porque a gente nunca ganhou dinheiro com isso. 

Um amigo me emprestou sua casa e fui morar sozinho. Não tinha dinheiro para nada. Sorte que meu intestino se acostumou à falta de alimentação – o café da manhã, por exemplo, até hoje ele rejeita. 

Estava trabalhando como ajudante de pintor com meu tio quando Paulo Rogério, do Mídia Étnica, meu maior mentor, me convidou para ser um dos correspondentes nordestinos do Correio Nagô. Passei a viajar o Brasil e, a partir daí, conheci várias outras articulações de jovens, com as quais fiz redes de comunicação. 

Um dia eu estava com alguns amigos quando uma moto se aproximou e homens armados atiraram em um deles. Até hoje não sabemos a circunstância mas acreditamos que meu amigo foi assassinado por engano. Testemunhas relataram que os caras da moto passaram procurando alguém de camisa vermelha. Ele estava de vermelho. O sangue dele sobre o asfalto me motivou a escrever um pedido de socorro no Correio Nagô. 

Quando eu falo da vida na periferia, não escrevo em terceira pessoa porque não estou falando só de outros jovens negros, estou falando de mim. Eu tenho medo de sair de casa depois das 22h por conta de abordagens policiais. Isso é violento. Até fui ameaçado quando escrevi um texto sobre o genocídio do povo negro – em apenas um final de semana, a polícia exterminou 15 vidas em Salvador. 

Atualmente eu sou apenas um colaborador do blog, quem trabalha mesmo é Mayara, Bruna e Diego. Eu falo para eles que agora precisam levar o barco, porque eu nunca quis centralizar. Quero que outros jovens passem pelo Mídia Periférica, ele existe para isso. Não consigo mensurar e quantificar os resultados dentro da comunidade, mas sei que existiu avanço.

Na lua cheia, continuo o sonhador que sempre fui. Realizo sonhos, mas nunca paro de sonhar. Ganhei uma bolsa para estudar publicidade em uma universidade de Salvador. Também estou com meu novo projeto, o Conexão em Favelas, onde escrevo relatos sobre minhas viagens e a intenção é que seja lançado um livro com essas histórias no fim do ano. 

Hoje eu tenho um filho de um ano e oito meses e sou conselheiro curador da Empresa Brasil de Comunicação. Consigo ajudar minha família financeiramente, mas ainda tenho medo. Continuo sendo negro na periferia. Correio da Bahia


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